PARTE TUA
PARTE TUA

Domingo, Agosto 27, 2006

Não é bem assim. é mais. sabe? bem mais. aquele tipo de mais que ultrapassa a própria palavra, tornando-se obscuro. é uma questão de sentir. não. não é exatamente sentir. é além do sentir. é ser a própria sensação que não é contida em nenhum tipo de tradução. entende? é aquele meio. aquela pausa. é o hiato. isso. não só isso. é o que não se diz. mas não é só ele. é a pausa que se dá entre o que ia se dizer mas se cala. é isso. é mais ou menos isso. é menos isso. é essa respiração. é essa não respiração. é essa coisa que você engole a seco. é isso que não se pronuncia nem emudece de novo. é isso. é assim. é um estar em suspensão. é. ou quase. é um quase.
C. - 11:34 AM

Quinta-feira, Agosto 24, 2006

E aquela sensação da casa em visconde de mauá, da horta, do vinho, do frio, do gosto, do cheiro, dos projetos literários, das fornadas de pães, das conversas cúmplices, das madrugadas sem fim.
e aquela sensação?
C. - 11:11 PM

Eu tinha um mal estar "cafona-burguês" que me impediria agora de estar bebendo uma skol gelada, tendo um super trabalho para apresentar no dia seguinte.
ficava extremanete incomodada, por exemplo, se em plena segunda feira me permitisse embebedar enquanto tantos estavam labutando, suor no rosto, enobrecendo a espécie e tal. mas eu tinha vinte anos. e com vinte anos tudo é perdoável.

hoje em dia, depois de duras aulas com alunos duvidosos, de reunião dispensável, de grana atrasada, de conta com multa e de uma palestra cansativa sobre Análise do Discurso; bebe-se tranqüilamente tanto ao meio dia de uma terça feira qualquer, como às onze da noite de uma quinta como esta.
delícias dos quase 31.
C. - 10:34 PM

Eu pensava que assim que inciasse meu mestrado na universidade pública que possui o melhor curso da área no Rio, minha vida fosse mudar de tom. ou eu fosse mudar de tom.
sei. sabemos.
pois bem, agora, além de perceber que minha cultura literária não era assim tão genial, estou sobregarregada de trabalhos para entregar e obrigada a ter ao menos dois capítulos da dissertação prontos até 6 de outubro.
amo essa minha capacidade de fazer grandes escolhas baseadas em certezas absolutas e, ainda que advinda de um enorme prazer, ter como resultado uma incomparável dor de cabeça.
C. - 9:59 PM

Domingo, Agosto 20, 2006

Domingo preguiçoso é uma enorme caneca de café preto e pão fesquinho com manteiga aviação.
C. - 10:22 AM

Sábado, Agosto 19, 2006

"E depois de fazer tudo o que fazem, se levantam, se banham, se entalcam, se perfumam, se penteiam, se vestem, e assim progressivamente vão voltando a ser o que não são."
(Amor 77, Cortázar)
C. - 1:47 PM

Tenho blog há quatro anos e nesse tempo todo tanta coisa já aconteceu e tanto de quase tudo já foi dito, mas fico pensando até que ponto esse universo te deixa devassado.
por coincidência achei um blog bacana e num dos posts o assunto era justamente esse: até onde somos nós mesmos aqui?
e acabei lembrando de um depoimento da Ana Cristina Cesar onde, quando questionada sobre o que era uma escrita íntima ou até onde escrever intimamente, falou sobre essa impossibilidade do autor se desnudar por completo ou se deixar revelar intimamente; já que a partir do momento em que a intimidade é publicada, passa a uma outra categoria que não mais a da intimidade.
então, você pode partir de uma sensação verdadeira ou de uma situação real, mas dali pra frente é construção. não tem como ser fiel aos fatos e fazer literatura.

o que Ana C. diz tem relação com a concepção de literatura como construção e não como representação, noção esta que, ainda que a proporção e o elemento construtivo sejam outros, torna-se bastante aplicável também no caso dos blogs.
e é isso que encanta.
C. - 12:18 PM

Sexta-feira, Agosto 18, 2006

Então preparo a casa como quem espera um grande amor: chão encerado, incenso leve, roupa de cama com cheiro de lavanda; porque você sabe que o segredo é borrifar umas gotinhas certeiras na hora de passar.

vento forte, chuva insistente, e eu escancaro as janelas. respinga tudo. água benta.

na taça um honesto Alamos Malbec - presente materno, na sala as margaridas amarelas compradas ontem, no som Billie cantando baxinho.
é calmo estar só.
C. - 10:06 PM

Quarta-feira, Agosto 16, 2006

Depois que li Tête à Tête, de Hazel Rowley, percebi que minha vida intelectual-afetiva-sexual é a coisa mais careta do mundo.
C. - 10:43 PM

Na 'partilha' pós separação fiquei, entre outras coisas, com um abajour gigantesco, daqueles que acabam com qualquer mínima tentativa de decoração e um móvel lindo, feito sob encomenda, e baseado num modelo que tínhamos visto numa dessas revistas de decoração.

a situação constrangedora durou um dia inteiro: eu lá dividida entre a tristeza e o alívio e ela, impávida colosso, separando as coisas com maestria e desenvoltura.
tudo transcorria com relativa tranqüilidade, até chegarmos aos livros e ao meu grito quase histérico: pára! o Neruda é meu! ui, me senti em música do Chico e quase ousei dizer sobre a leve impressão de que já ia tarde.

mas lembrei disso tudo porque dia desses a vi de longe na rua, e me dei conta que a gente só tem a certeza de que um velho amor se tornou um ex amor velho (gasto e distante), quando a sensação de indiferença suplanta qualquer tipo de mágoa ou nostalgia. e te digo: é leve.
C. - 1:48 PM

Segunda-feira, Agosto 14, 2006

Ando me presenteando com gente.
como na última sexta à noite, onde todas as gatas são pardas, em que revi amigas queridas, bebi bem, comi bem e conversei melhor ainda. risadas altas, emoção assim transbordando e eu nem me contendo. falo demais, toda animadinha, grito declarações de afetos eternos e cito poetas duvidosos. sou absolutamente cafona com quem amo.
C. - 3:04 PM

Terça-feira, Agosto 01, 2006

Ando ventando.
e é tão doce.

***
congresso bacana, gente interessante, cartões, projetos e a impressão, quase inédita pra mim, que é. é isso. é?

***
o tempo vira e eu viro junto. refresco, vento, chovo, trovôo, relampejo e invento verbos.

***
não falarei de Marcos Losekann e seu trabalho como assessor de imprensa de entidade sionista. não falarei dos abusos do Estado de Israel. não falarei porque ando à margem. ao menos por esses dias. cansei da linha reta, previsível. quero a curva, imponderável.

***
Ando ventando.
e é tão leve.
C. - 6:08 PM


















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